Menino da Colônia - 2 Em casa


Jabert Diniz Júnior

Chegando em casa, minha avó foi direto ao pote. Colocou água em um copo e me deu. Bebi aquela água fresquinha. Ela também bebeu uns goles e deixou as coisas que ela trouxe da cidade em cima da mesa da cozinha.

Vovó abriu as portas e janelas da casa, me chamou para um dos quartos, abriu um velho baú, que eu já conhecia. O baú era abarrotado de revistas, gibis e livros ilustrados, dos quais, uns falavam de um monte de profissões.

- Fica aqui, vendo seus livrinhos, que a vovó vai cuidar do almoço!, falou minha avó.

Fiquei me deliciando com os gibis da turma da Mônica, do Zé Carioca, Recruta Zero, Zorro, Tex, Tio Patinhas, enquanto minha avó cuidava do almoço.

A casa da colônia do meu pai era uma construção de alvenaria de dois quartos amplos que se comunicavam por uma porta. Cada quarto também tinha uma porta que dava para a varanda. Na varanda ficava uma  mesa grande e dois bancos de madeira compridos, um de cada lado da mesa. Na varanda, também, ficava o pote de água. Não havia geladeira, até porque não tinha energia.

A cozinha era contígua à varanda, separada por uma parede. No fim da cozinha, a porta dava saída pro fundo da casa, que levava direto ao curral dos bezerros, a apenas alguns metros da casa. Entre a casa e o curral, havia um enorme coqueiro. Na cozinha, havia um grande fogão a lenha, feito de concreto. Havia uma porta que dava para uma despensa onde eram guardadas várias ferramentas e os mantimentos. O banheiro ficava do lado direito.

Entreti-me nos gibis e livros que o tempo passou rápido. Minha avó me chamou para almoçar. Ouvi outras vozes lá por fora. Eram os vaqueiros Porfírio e Bonifácio e mais alguns homens que trabalhavam na roça; também vieram almoçar.

Minha avó me serviu um prato de feijão com arroz e bife, que ela já havia cortado.

Na mesa, quem mais falava era Bonifácio, que era o vaqueiro de confiança do meu pai e era muito falante e conversador.

Depois do almoço, os homens foram descansar lá por fora. Minha avó não. Foi para a cozinha lavar a louça e arrumar a cozinha. Minha avó não parava.

Já eu, voltei para o quarto. Vovó havia estendido uma esteira de palha no chão e lá fiquei com meus gibis e livrinhos.

Agora era quase um silêncio absoluto na fazenda. Carros quase não passavam pela estrada enlameada. Ouviam-se somente os pássaros, periquitos, papagaios, cigarras e mugidos do gado que pastava ali por perto.

Lá pelas quatro horas da tarde, fui brincar lá por fora. Minha avó foi lavar roupa na beira do poço e por isso, deixou eu brincar ali por perto. E eu me divertia com qualquer coisa. Correndo atrás das galinhas, dos patos e dos outros bichos da criação. Depois fui para perto do curral, ver os bezerrinhos que já estavam presos.

Aproximando a noite, entretanto, comecei a sentir a falta da minha mãe. Era sempre essa hora que voltávamos para a cidade, quando eles vinham para a colônia. Mas dessa vez eles não vieram. Aí, caí no choro. Nunca tinha ficado na colônia à noite. Vovó me ralhou, mas depois me acalmou. Jantamos e em segida fomos até a casa da dona Terezinha e do seu Irineu.

Minha avó e eu fomos andando pelo caminho entre o capim. Minha avó, atenta, levava uma lanterna grande na mão esquerda e um terçado na direita. Eu ia atrás dela, com uma lamparina.

Ainda estava meio triste, meio com medo. Mas, ao chegar lá, fui recebido com muito carinho pela dona Terezinha.

Oh, coitadinho! Olha, vai brincar com os meninos.

Dona Terezinha e seu Irineu tinham muitos filhos. O mais novo, o Manoelzinho era da minha idade. E fomos brincar. A iluminação era de lamparinas e candeeiros.

E brincamos de baralho e outras coisas mais.

Voltamos para casa pelo mesmo caminho. Vovó sempre atenta, com sua lanterna e seu terçado. Chegando em casa, vovó lavou meus pés e minhas sandálias. Atou minha rede perto da rede dela.

Vovó ainda foi lá fora. Estava escuro, mas ela ainda tinha uma tarefa: checar se havia aranhas-caranguejeiras subindo pelas paredes da casa. Ela foi com sua lanterna e o terçado. Invariavelmente, ela encontrava algumas aranhas.

Eu estava tão cansado de tanto brincar que, nessa noite, dormi que nem um anjinho. Foi minha primeira noite dormindo na colônia com minha avó..

Bem de manhãzinha, já acordamos. Via a claridade pelas frestas do telhado. A casa não tinha forro e as telhas de barro deixavam entrar a claridade do sol nascendo.

Seis horas, minha avó já havia feito o café. Era domingo, mas a rotina não mudava muito. Bonifácio já estava tirando leite das vacas.

Vovó me deu minha escova com a pasta de dente e uma caneca com água.

- Toma, vai escovar os dentes!

E fui para perto do coqueiro grande. De lá, via o Bonifácio tirando leite das vacas.

Vovó colocou café com leite e me deu um pedaço de pão com manteiga.

Depois de tomar café, fui para perto do curral. Gostava de ver os bois, as vacas e os bezerros do meu pai. Gostava de ver os vaqueiros em cima dos cavalos pelo meio do gado.

E aquele foi um domingo diferente. Li gibis, brinquei com os bichos da fazenda. Manoelzinho apareceu e brincamos juntos.

De tarde, meus pais apareceram. Foi uma alegria indescritível, ver minha mãe.

E quase no finalzinho da tarde, fui-me embora com eles. Voltei para a rotina da cidade. Minha guerreira avó, a "Vó Cheirosa" ficou.

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