O Trapichinho em minha memória

Travessa Antônio Mesquita (antiga Ascendino Monteiro), dava direto no rio Surubiú e no Trapichinho do seu Ivan, a apenas dois quarteirões de casa. Ei, mas cadê o Trapichinho?


J
abert Diniz Júnior

Dizem que viajar com os filhos imprime nas suas lembranças grandes memórias afetivas. Deve ser verdade, pois, eu mesmo lembro de viagens que fiz com meu pai ou com meu avô que ficaram marcadas, me trazendo grandes recordações.

Mas há coisas realizadas no lugar em que você nasceu e morou durante sua infância que também ficam na memória para sempre. E quando você se lembra, lembra com grandes saudades. Posso até afirmar que estas coisas vividas no seu lugar de origem, naquela sua tenra idade, são as que mais ficam guardadas na memória.

"Tomar banho na beira" (no rio) era uma das maiores emoções da nossa vida quando éramos crianças. Pelo menos era para mim e meus irmãos, em Alenquer, cidade em que nascemos e vivemos a nossa infância. Era uma felicidade inexprimível, tomar banho na beira.

Mas, tomar banho na beira do rio Surubiú era uma diversão perigosa. Várias crianças e jovens morreram enquanto se divertiam tomando banho no rio.

Por essa razão, para nós (eu e meus três irmãos homens: Douglas, Zé Jorge e Guto), tomar banho na beira sem a devida autorização do velho era uma temeridade. O velho não refrescava com esse tipo de desobediência: tacava logo uma surra em quem se atrevesse a desobedecê-lo. Meu pai sabia dos perigos do rio. Meu pai nasceu e viveu sua infância e adolescência na beira do Rio Amazonas.

E era impossível disfarçar quando se tomava banho na beira, porque quem ficava muito tempo no rio, voltava queimado de sol, com olhos vermelhos e com a pele "tuíra", denunciando a infração. Então, era melhor obedecer. (De vez em quando um desobedecia rs...).

Mas o Velho não era um carrasco, só era muito cuidadoso com sua prole que, como todo moleque da cidade, era muito traquina. Então, ele era rígido nesse quesito porque o perigo de afogamento era grande. Muitos meninos morreram no rio Surubiú, inclusive o "Boto", um jovem muito conhecido na cidade e que morava lá na serra, próximo à Oficina dos Padres.


Então, considerando a possibilidade da nossa desobediência, especialmente dos mais velhos (eu era o mais criança dos quatro), uma vez que o rio estava ali, a dois quarteirões de casa e era uma tentação, meu pai usou de uma estratégia para evitar que fôssemos para o rio escondidos.

Havia, além do grande Trapiche Municipal, o "Trapichinho", que era uma grande ponte de madeira rústica que pertencia ao seu Ivan Nunes, que, à época era também proprietário do barco Antonico, que fazia linha Alenquer/Santarém/Alenquer e ancorava lá. No tempo das grandes enchentes, as águas do rio Surubiú chegavam a passar por cima do Trapichinho.

Trapichinho, à direita, criado pela IA. Aí a diversão era garantida para a molecada ximanga na década de 1970. A molecada tomava banho e brincava de "domirrã".

Num dos períodos de cheia dos rios amazônicos, quando as águas subiram até quase à segunda rua, meu pai, sabiamente, sabendo que nós éramos fissurados em tomar banho no rio, teve uma ideia: ele mesmo resolveu nos levar para esta diversão, supondo que isso seria suficiente para que não fôssemos sozinhos para o rio sem sua autorização e correndo risco de vida.

Acontece que a ideia dele foi nos levar para tomar banho na beira, no Trapichinho do seu Ivan Nunes, às seis horas da manhã. Isso mesmo, seis horas da manhã. E essa brincadeira aconteceu durante todas as manhãs de junho de 1976. Meu pai nos acordava cedinho, os quatro filhos homens, e descíamos para o Trapichinho que ficava a dois quarteirões de casa.

E nos divertimos muito com seu Jabert nesta época. Voltávamos sempre lá pelas sete e meia da manhã para tomar café, extasiados e felizes por termos vivido aqueles maravilhosos momentos com nosso pai. E essas lembranças dão muitas, mas muitas saudades, gostosas saudades.


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Caríssimo leitor, caso tenha gostado da historinha, já sabe, COMPATILHE com os amigos e, se desejar, deixe seu comentário. Conte aí, sobre uma lembrança feliz da sua infância!

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