Elke em Alenquer, Maravilha!


 

Jabert Diniz Júnior

A maioria absoluta dos brasileiros que conheceram Elke Maravilha, a conheceram pela TV, que era a mídia dominante no decorrer da sua carreira artística. E a conheceram provavelmente como jurada do programa do Chacrinha, ou em outros programas do gênero. 

Porém, boa parte dos jovens de hoje não devem nem saber quem foi Elke Maravilha. Só os mais antigos, que a viam nos programas de auditório com aquele seu visual extravagante.

Elke Maravilha tem uma história, no mínimo, interessante, que não se restringe ao seu personagem exótico. Uma história para além dos programas de auditório da TV brasileira.

Nascida em São Petersburgo, Rússia, em em 22 de fevereiro de 1945 (Há quem diga que foi na Alemanha), Elke Georgievna Grünupp, veio para o Brasil quando ainda tinha seis anos de idade.

Ela, os pais e os irmãos emigraram para fugir da pobreza causada pela Segunda Guerra Mundial. No Brasil estabeleceram-se primeiramente em um sítio em Itabira, em Minas Gerais.

Pouco tempo depois, a família foi morar em Atibaia e depois em Bragança Paulista, no Estado de São Paulo. Não demorou muito, retornaram para Minas Gerais. 

Em 1962, com 17 anos, Elke foi a vencedora do concurso “Glamour Girl”, em Belo Horizonte - tradicional evento de beleza e solidariedade que celebrava a juventude e a sofisticação, organizado pela Liga Feminina de Combate ao Câncer. Foi neste período que ela foi naturalizada brasileira.

Com 20 anos, Elke foi morar no Rio de Janeiro. Foi quando ela conseguiu seu primeiro emprego como secretária trilíngue. Elke, porém, já falava nove idiomas: russo, português, alemão, italiano, espanhol, francês, inglês, grego e latim, muitos dos quais aprendeu no ambiente familiar.

Como o escritor grego Alexandros Evremidis, seu primeiro marido, previu (ela se casou 8 vezes), Elke tornou-se uma das mais emblemáticas manequins do país.

Já no início da carreira, a modelo conheceu a estilista Zuzu Angel, de quem se tornou uma grande amiga.

Elke chegou a ser presa por desacato no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, após rasgar cartazes com a foto do filho de Zuzu (morto pelo abominável regime militar brasileiro).

O episódio aconteceu em 1971, período mais repressivo da ditadura militar brasileira, o que fez com que a artista fosse enquadrada na Lei de Segurança Nacional e perdesse sua cidadania brasileira, tornando-se apátrida. Elke foi solta depois de seis dias graças à intervenção de amigos da classe artística.

Abre-se um parêntese para falar brevemente do caso de Zuzu Angel e de seu filho Stuart.

Zuleika Angel Jones tornou-se conhecida como Zuzu Angel quando suas criações como estilista alcançaram grande reconhecimento internacional nos anos 1950/60. No início da década de 1970, no entanto, a vida de Zuzu Angel sofreu grande reviravolta. Em 14 de maio de 1971, seu filho Stuart Angel Jones, perseguido por sua militância política no MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro), foi sequestrado e nunca mais visto.

Na busca por informações do paradeiro de seu filho, ficou comprovado por várias testemunhas a prisão, tortura e morte de Stuart Edgar Angel na Base Aérea do Galeão, no Rio de Janeiro.

Stuart foi barbaramente torturado pelo sargento da Aeronáutica Abílio Correa de Souza, o "Pascoal".

Após a sessão de tortura, entre espancamentos, eletrochoques e afogamentos, ele foi preso a um carro e arrastado pelos agentes do Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica (CISA) pelo pátio da base aérea do Galeão, no Rio de Janeiro, onde estava detido.

Naquele dia, entre risos e piadas, os militares o amarraram com a boca presa ao cano de escapamento de um automóvel e o arrastaram por todo o pátio de concreto do aeroporto. Stuart foi esfolando vivo enquanto respirava a fumaça de óleo diesel do veículo. 

Os militares aceleravam e freavam a viatura enquanto riam da situação, como relatou o também prisioneiro Alex Polari, que assistiu a todo o episódio da janela de sua cela. No fim daquele dia os militares abandonaram Stuart naquele pátio, implorando por água, sem a pele e tossindo muito. 

O Soldado José Bezerra da Silva, que também testemunhou a tortura de Stuart disse, momentos antes do esfolamento do jovem, que aquilo "era uma covardia".

Ao ser indagado pelos outros militares, ele afirmou que "quatro caras batendo em um só, um homem já preso e doente", era uma covardia. O soldado Bezerra também foi preso e torturado por questionar a ação dos oficiais. 

Stuart Angel tinha 25 anos. Seus restos mortais nunca foram encontrados. Seus algozes nunca foram punidos. 

Stuart Angel e Zuzu Angel

Zuzu passou a denunciar, no Brasil e no exterior, as circunstâncias de prisão, tortura, morte e ocultação do corpo de seu filho.

Todas as iniciativas de Zuzu contribuíram para o desgaste da imagem internacional da ditadura brasileira, o que causava incômodo nos meios governamentais.

Em 1976, Zuzu, aos 53 anos de idade, vítima de grave e suspeito acidente automobilístico, veio a falecer.

A versão divulgada à época foi a de que o carro de Zuzu teria saído da pista, colidido com a proteção do viaduto Mestre Manuel e capotado várias vezes em um barranco. 

Em 1996, a partir da análise forense realizada no corpo de Zuzu, da reunião de testemunhos de Lourdes Lemos de Moraes, que comprovava a recente revisão do carro, e de Marcos Pires, sua morte foi considerada responsabilidade do Estado brasileiro. Zuzu Angel também foi vítima do famigerado regime militar.

Fonte: https://memorialdaresistenciasp.org.br/pessoas/zuzu-angel/

Voltando para Elke

Televisão

Foi na televisão que Elke ganhou o apelido de "Elke Maravilha" do jornalista Daniel Más. A modelo tornou-se uma figura popular na TV brasileira durante os anos 70 e 80, após ser convidada para ser jurada de programas de calouros como Chacrinha e Silvio Santos.

Elke trabalhou com Chacrinha durante 14 anos. Foi no Chacrinha que a ela passou a aparecer usando roupas e perucas chamativas, que vieram a se tornar sua marca registrada.

Na televisão, sua estreia como atriz aconteceu somente em 1986, onde interpretou a dona de um bordel na minissérie “Memórias de um Gigolô”. A atuação lhe rendeu um convite para ser madrinha da “Associação das Prostitutas do Rio de Janeiro”. Em 1993, estreou o “Programa da Elke”, recebendo personalidades para entrevistas e bate-papos.

Elke cativou os espectadores com seu bom humor e com mensagens positivas que passava na telinha.

Cinema e Teatro

Já como atriz, seu primeiro trabalho foi em 1971 no filme “O Barão Otelo no Barato dos Bilhões”. Posteriormente atuou em  outros filmes como: “Pixote”, “Quando o Carnaval Chegar” e “Xica da Silva”. Pela atuação neste último, foi premiada com a Coruja de Ouro como melhor atriz coadjuvante.

Elke Maravilha tornou-se uma personalidade icônica da cultura brasileira. E assim como Carmen Miranda, que nasceu em Portugal e se tornou um símbolo do Brasil, Elke que alega ter nacionalidade russa, chegou a ser apátrida, mas nutriu um grande amor pelo Brasil desde criança.

Elke cursou filosofia, medicina e letras, mas o destino a levou para outros caminhos ligados à arte e à moda. Mesclando elementos tribais e futuristas e, muitas vezes aderindo a uma caracterização andrógina, Elke desenvolveu um estilo singular de vestir-se e pentear-se que, para muitos, chegava a ser um visual “estranho”.

Além da aparência extravagante, Elke também ganhou notoriedade por ter o anarquismo como orientação política e filosofia de vida, não à toa, foi considerada uma pessoa libertária e muito à frente do seu tempo. 

Como atriz de teatro, participou de diversas peças como “A Paixão de Cristo” e “Carlota Joaquina”.

Músicas gravadas e falecimento

Além de modelo, atriz, apresentadora e jurada, Elke também trabalhou como intérprete musical. Gravou a canção “O Xote das Meninas” para o álbum triplo 100 anos de Gonzagão.

Muito antes, porém, em 1972, já tinha feito sua primeira gravação profissional registrando a “Marcha da Zebra” para o álbum “Folião Rio, Carnaval e Amor”. A modelo também deu voz, em 1976 à duas músicas dos compositores Rogê e Leonete, “Gira Roda” e “Juju”, para o álbum duplo Carnaval, “Amor e Fantasia”.

Já no fim da carreira, a apresentadora teve dois espetáculos de teatro autorais, nos quais atuava e cantava: “Elke – do Sagrado ao Profano”, em 2005 e “Elke Canta e Conta” (espetáculo comemorativo dos 70 anos da artista), em 2015, um ano antes de sua morte. Elke Maravilha faleceu no dia 16 de agosto de 2016, aos 71 anos, vítima de falência múltipla dos órgãos.

Fonte: https://universo.salonline.com.br/historia-e-vida-de-elke-maravilha/

Elke Maravilha em Alenquer

Este é um recorte da vida de Elke Maravilha que, como podemos ver, foi repleta de aventuras, coragem e posicionamento político.

Toda essa sua história, no entanto, é possível conferir nas mídias impressas ou eletrônicas, em revistas ou em suas biografias

Mas o que poucos sabem e que não consta nas histórias contadas até aqui, é que Elke Maravilha teve uma breve passagem por Alenquer. 

Foi em 1979. E isso se deve, pelo menos a dois fatores fundamentais:

O primeiro é que o senhor Geoge Grünupp, o pai de Elke Maravilha, àquela época, era o gerente proprietário da empresa Curuá Agricultura e Participação LTDA, fundada em 10/08/1978, em Alenquer e que tinha como atividade principal, conforme a Receita Federal, o Cultivo de cacau. E seu escritório ficava localizado no bairro do Centro, na Avenida 07 de setembro, número 317.

Por essa razão, o senhor George Grünupp sempre estava na cidade e, naturalmente, era conhecido e conhecia as personalidades da sociedade ximanga.

O outro fator determinante para a presença de Elke Maravilha em terras Ximangas é que no ano de 1979 o presidente do clube União Esportivao era o dr. Zé Hage (senhor José Jorge Hage) e conhecia bem o pai de Elke.

Vanguardista como era, dr. Zé Hage (proprietário do único cinema da cidade, o Cine Teatro Ideal) tinha como propósito levar sempre cultura e novidades para a cidade que escolheu para amar e viver, tanto através do seu empreendimento pessoal, como através do clube do qual foi membro da diretoria por bastante tempo.

Dr. Zé Hage, à esquerda, ao lado da sua esposa Dona Ana Simôes Hage, juntos com parte da família.
Fonte: Professora Eliete Hage Diniz

Então, dr. Zé Hage conversou com o pai de Elke e pediu para ele convencer a filha a vir a Alenquer, aproveitando as festividades do padroeiro Santo Antonio, e, com sua presença, abrilhantar a nova sede do clube, especialmente para as crianças, estendendo uma apresentação que ela faria em Santarém, cidade vizinha.

À esquerda, a Placa de Fundação da nova sede própria do clube União Esportiva. À direita, documento emitido  em 1979 pela prefeitura de Alenquer, atestando o pleno funcionamento da sede e a constituição de sua diretoria, sob a presidência do dr. José Jorge Hage. 

Com esse convite, Elke Maravilha, então com 34 anos, se apresentou no clube o União Esportiva em junho de 1979, fazendo a alegria da criançada, mas também, dos adultos.

Elke Maravilha na sede do clube União Esportiva (Alenquer-Pa), rodeada de crianças. Ao lado, o senhor Abner Ferreira de Araújo, então Promotor de Justiça da cidade.
Fonte: Acervo da professora Raimunda Brilhante

Elke Maravilha, com toda a sua simpatia e exuberância foi muito tietada pelo ximangos, que aproveitaram para fazer vários registros fotográficos com ela. Àquela época, no entanto, os registros eram feitos quase que exclusivamente pelo "seu Ceroura", o fotógrafo alenquerense mais requisitado daqueles tempos.

Eu e meus irmãos Guto e Zé Jorge (in memoriam), juntos com Elke Maravilha, na casa do dr. Zé Hage (meu avô).
Fonte: Acervo da professora Eliete Hage Diniz


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Caríssimo leitor, caso tenha gostado da historinha, já sabe, COMPATILHE com os amigos e, se desejar, deixe seu comentário. E se você, alenquerense, esteve em algum registro com Elke Maravilha naquele ano, conte aqui.


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