Mutuca é que põe boi velhaco
Jabert Diniz Júnior
"Deus está nas coincidências!"; "Não se troca amor velho por amor novo!"; "Mutuca é que põe boi velhaco!"; "É melhor ficar vermelho por um momento do que amarelo a vida toda!".
Esses são alguns dos vários ditados que, desde criança, tantas e tantas vezes escutei do meu pai; ora para nos passar alguma orientação, ora para ironizar uma situação qualquer, fazer uma piada, gozador como sempre foi o "Velho".
Afinal de contas, os ditados e jargões são expressões consolidadas na cultura brasileira que transmitem experiências, sabedoria popular e comportamentos; esses ditos populares são passados de geração em geração e sintetizam ideias complexas de forma breve e, quase sempre, carregadas de humor ou ironia.
O Velho, quando queria nos passar um ensinamento da sua larga experiência de vida, muitas vezes, recorria aos seus velhos ditados. E eu procurava interpretá-los e assimilá-los do meu jeito. Nem sempre perguntava ao meu pai o que exatamente significava. Ficava a ruminá-los para, dali, tirar uma lição.
"Deus está nas coincidências!". Quando alguma coisa acontecia, ou, mesmo, quando contava suas aventuras juvenis de quando viveu no Rio de Janeiro, de sua origem no Lago Grande de Santarém, de sua vinda para Alenquer, de como conheceu minha mãe, e outros causos, meu pai enfatizava as "coincidência" para tais coisas acontecerem. Porém, finalizava: "Deus está nas coincidências!".
"Não se troca amor velho por amor novo!" Muitas das vezes, quando nós, os filhos, e até mesmo os meus primos, nos encontrávamos com nossos problemas amorosos e corríamos para nos confidenciar com o Velho e pedir-lhe conselhos, com alguma frequência, depois de muita conversa, escutávamos "Não se troca amor velho por amor novo!".
Em "Mutuca é que põe boi velhaco!", meu pai passava a ideia de que uma coisa que nos incomoda com frequência, deve nos deixar mais espertos, mais atentos, prontos para agir e sair da zona de conforto. Já que, sendo a mutuca um inseto hematófago e detentora de uma picada muito dolorosa, ela causa grande estresse nos animais, especialmente no gado, deixando-o meio "velhaco", mais "ligado".
Todos esses ditados, expressados em momentos oportunos, certamente nos foram muito valorosos.
E, de todos os ditados do Velho, o "É melhor ficar vermelho por um momento do que amarelo a vida toda!", esse, sim, me norteou nas decisões difíceis da vida. Momentos em que me encontrava longe dele, naquele período da adolescência, quando morava sozinho, mas que ainda me orienta até os dias de hoje.
Com esse ditado, que cansei de escutá-lo repetir, meu pai me ensinou a tomar decisões difíceis, ainda que não fossem as mais acertadas. Lembrar dessa expressão me impulsiona pra frente, me ajuda a vencer a procrastinação. Já que, ficar na dúvida é, de fato, uma situação muito desconfortável - É o "ficar amarelo a vida toda".
"Ficar vermelho por um momento" representa ter coragem de assumir uma posição, ainda que, naquele breve momento, gere atrito; o amarelo, por outro lado, significa acovardar-se, omitir-se, ou ter medo de assumir riscos, procrastinar.
É...., os ensinamentos do meu pai, através dos seus ditados preferidos, vão ficar para sempre, vão sempre nortear a minha vida e de muitos que tiveram e têm o privilégio de conviver com ele.
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