A última viagem
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| O Pracinha, figura ilustrativa, modificada por IA. |
Jabert Diniz Júnior
Ainda não eram nem cinco horas da manhã, estava tudo escuro lá fora. Eu, naturalmente, não estava habituado a acordar àquela hora, tinha treze anos. Meu pai, sim. Meu pai sempre acordou cedo. Sua infância inteira foi assim, toda a sua vida foi assim. E agora não era diferente. Era um comerciante na cidade, mas também, um pequeno pecuarista. Muito cedo tinha que estar no batente.
Levantei, preguiçosamente, mas levantei. Lavei o rosto, escovei os dentes, me arrumei. Fomos tomar café. Minha mãe também havia acordado. Tomamos café juntos.
Pegamos as tralhas: valise com roupas e redes, isopor com gelo, água, comida e outras coisas necessárias para a viagem.
Nos despedimos de minha mãe, meu pai e eu, e saímos de casa, descemos a travessa Ascendino Monteiro (atual Antonio Mesquita) em direção à "beira" do rio.
Chegando lá na beira, seu Aurino já estava no barco e nos recepcionou, dando bom dia. "Bom dia, seu Aurino!", respondemos.
Seu Aurino Sena, o dono do "Pracinha", o pequeno barco que nos levaria ao nosso destino naquele dia era amigo de longa data do meu pai.
Seu Aurino foi combatente na Itália durante a Segunda Guerra Mundial. Daí, o nome do seu barco: "Pracinha", homenagem à sua participação no combate ao nazifascismo europeu.
Iniciaríamos ali, às seis horas da manhã, uma viagem pelos rios amazônicos, saindo de Alenquer pelo rio Surubiú, rio que banha a cidade.
Não era a minha primeira viagem para o Maiúa, o sítio do meu avô que ficava na várzea "Costa de Óbidos". Meu pai sempre nos levou, meus irmãos e eu, quando transportava seu gado para lá, ou quando os buscava para a terra firme no processo de "passação", fenômeno amazônico de passar o gado para a várzea, na "seca" e trazê-los para a terra firme nas "enchentes".
Aquelas viagens, porém, eram em barcos maiores, mais velozes, mais confortáveis, com tripulação maior. Havia um barco de um compadre do meu pai, seu Lúcio, chamado "B/M Carnaval", que ele fretava para fazer esses transportes.
Esta última viagem, não. Éramos apenas eu, meu pai e seu Aurino, num barco pequenininho, o "Pracinha". Meu pai estava indo lá no Maiúa, para tratar de questões de venda de algumas reses.
Partimos, então, às seis horas da manhã, serpenteando pelo Paraná de Alenquer. Era uma manhã bonita, considerando que estávamos no início do inverno amazônico.
Logo depois da primeira curva, quase não víamos mais a cidade por trás da ribanceira. Mais adiante, passavam revoadas de periquitos e de outros pássaros. Alguns botos parece que seguiam o pequeno barco, nos protegendo.
Após várias curvas pelo rio, vislumbrando aquela paisagem verde ximanga, quase na saída do rio Surubiú, na altura da comunidade Vira-Volta, meu pai resolveu parar para comprar umas coisas para levar para o sítio do meu avô.
Lá, nesta comunidade, morava seu Adriano, que era um outro seu compadre, e tinha um pequeno estabelecimento comercial. Atracamos em uma ponte de madeira. As águas já estavam começando a cobrir as terras mais baixas da várzea. Estávamos no final de fevereiro de 1982.
Fomos recepcionados pelos donos da casa com um cafezinho quentinho, beijús e pupunha. Foi em boa hora, já tínhamos navegado por quase três horas, mais ou menos.
Depois de umas conversas e de comprar alguns mantimentos, meu pai e seu Aurino se despediram dos anfitriões e partimos novamente. Dentre as coisas compradas por meu pai veio também uma garrafa de vinho Dom Bosco.
Recomeçamos a viagem já entrando no rio Amazonas, deixando para trás o tranquilo Surubiú. Havia tempo que não fazia esta viagem com meu pai. Tive muitas aventuras com ele antes.
Esta viagem, porém, foi longa, divertida e, digamos, meio perigosa.
O lado divertido da viagem ficou por conta do seu Aurino, que sempre tinha uma história engraçada pra contar.
Não tínhamos levado um saca-rolha na viagem, então, lá pelas onze e tantas da manhã, quando seu Aurino foi abrir o vinho, sei lá com o quê, a boca da garrafa quebrou. Então, falei pro seu Aurino que seria perigoso a gente beber aquele vinho porque correríamos o risco de engolir algum caquinho de vidro. Seu Aurino, brincalhão como era, falou: "Sai pelo c...?" E rimos, e bebemos o vinho, enquanto o peixe cozinhava num fogãozinho a gás.
Já os perigos, primeiro, vieram dos enormes troncos de árvores que desciam o rio Amazonas, obrigando-nos, seu Aurino, o nosso experiente timoneiro, e nós, meu pai e eu, ficarmos atentos e nos desviar do perigo.
Nas cheias do Amazonas a descida dessas toras de madeira é comum, causada por outro fenômeno, conhecido como "terras caídas".
E assim, fomos, subindo pelo Amazonas, com seus encantos e perigos, nos revezando na pilotagem do barco. Pois é isso mesmo, até eu, em alguns momentos, pilotei o barco, sob a orientação do seu Aurino, ou do meu pai.
Seu Aurino, quando passava o comando pra mim, enquanto ia checar o funcionamento do motor lá atrás, ou fazer outra tarefa dizia: "Tu mira naquela árvore láá...!", apontando o dedo para uma árvore que se destacava bem distante. "Mas presta atenção no rio, pra ver se não vem algum tronco na direção do barco!"
E assim, eu fazia. Porém: "Cuidado!", meu pai gritou, em determinado trecho, e correu para assumir o comando, pois vinha em direção ao barco um tronco que eu não tinha percebido. Estava meio submerso, mas meu pai viu a tempo e manobrou rapidamente o barco a bombordo a tempo de não sofrermos um acidente.
E nessa pegada, com horas e horas de viagem, chegamos num ponto do rio Amazonas que teríamos que atravessar para a outra margem, onde ficava o sítio do meu avô.
E, nessa travessia da margem esquerda para a margem direita do Amazonas, no último trecho da viagem, uma distância de cerca de quatro quilômetros que, no Pracinha, levou uma eternidade, com ondas que jogavam o barquinho pra cima, foram os momentos mais tensos.
Meu pai me mandou vestir um colete e ficar perto de uma caixa térmica de isopor para qualquer eventualidade.
Seu Aurino tomou conta do leme, meu pai ia de olho nos enormes troncos de árvores que desciam o rio, auxiliando o capitão do barco. E eu ali, tenso pelos perigos do momento, mas, ao mesmo tempo, seguro... estava com meu pai.
Depois de aproximadamente doze horas de aventura e quase uma hora atravessando o enorme rio Amazonas, desviando de troncos e muitas ondas e banzeiros, finalmente chegamos do outro lado e atracamos. Fomos recepcionados pelo Vô Zeca, pai do meu pai, um caboclo forte, um coroa que ainda montava muito bem num cavalo.
Pronto, estávamos em terra firme, vi minha vó Esmerinda que, naquela noite preparou um dos jantares mais deliciosos que experimentei: simplesmente porco guisado com arroz e farinha, à luz de lamparinas e candeeiros.
Dois dias depois, resolvidos os negócios do meu pai, voltamos, descendo o rio Amazonas.
E esta foi a última viagem que fiz com meu pai para o sítio do meu avô.
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