Eu quero meu kichute original
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| Pelezinho. Fonte: Maurício de Sousa produções. |
Jabert Diniz Júnior
Modas vêm, modas vão, umas ficam, outras não. Hoje em dia, muito mais rápido que antigamente, as modas vêm e vão freneticamente.
Uma ou outra a gente se apega, a gente adere, ou porque ela reflete o nosso jeito, ou porque é algo bonito, ou por qualquer outra razão que a gente prefere.
Assim aconteceu com o kichute, um tênis que virou mania entre a garotada brasileira nos anos 1970 e 1980.
Lançado em junho de 1970 pela Alpargatas, o kichute era feito de lona preta, resistente e com o solado que imitava os cravos de uma chuteira de verdade. Lembrava uma chuteira de verdade, já que naquele tempo não havia chuteira azul, branca, verde, rosa... As chuteiras eram pretas.
O kichute foi lançado durante o período da copa do mundo do México de 1970, e o escrete Canarinho era só bicampeão.
Após a conquista do tricampeonato do Brasil, o kichute estourou em vendas, chegando, no auge da sua fama, a vender nove milhões de pares anualmente. Isto significa que quase dez por cento da população brasileira da época comprava um kichute por ano.
E quando o kichute surgiu em Alenquer (com algum atraso, naturalmente, já que ainda não havia televisão na região que passasse os comerciais do calçado), foi uma febre entre a molecada ximanga daquela época.
Não sei exatamente quem foi o felizardo que apareceu com o primeiro exemplar, mas lembro de quando comecei a apurrinhar minha mãe pra que ela me comprasse um. Era o ano de 1974 e eu tinha seis anos.
De tanto aperrear, minha mãe me levou ao comércio, à avenida Lauro Sodré, no bairro do Aningal, para irmos atrás do meu sonho de consumo do momento.
Entramos na primeira loja, mas o que eu vi não me agradou. Incrível, mas já havia imitações. Um kichute com a metade do preço? Baratinho? Não, não podia ser! Aquele não era do mesmo material; não me agradou. O número cabia, mas aquele não era o kichute dos meus sonhos. Estava diferente dos que havia visto.
Minha mãe não compreendia a diferença. Só os moleques sabiam identificar um kichute original. As mães, não.
Então, andamos em outras lojas. Até que, na loja do seu Pedro Maluco, já quase na praça de São Sebastião, eis que encontramos o tal kichute. Aquele, criado e fabricado pela Alpargatas. Um autêntico kichute. Mais caro, evidentemente.
No entanto, só havia números grandes. Dois números acima do meu. Era um kichute número 32. Ainda assim, meu olhos brilharam. Já me via jogando futebol com ele. indo pra escola, para a educação física, para todods os lugares. Mas era dois números acima do meu. "Está grande, meu filho!", disse minha mãe. "Mas, eu quero!, respondi. Não levamos, e fui triste pra casa.
No outro dia, porém, sem que eu soubesse, depois de procurar em outras lojas e não encontrar o tal kichute "original" com meu número, ela comprou o número 32. E me deu. Então, pense num moleque feliz. Era muita alegria. Era felicidade demais. Parecia até que o Vasco tinha sido campeão.
E, na mesma hora coloquei o enorme cadarço, calcei uma meia, calcei o kichute, passando o cadarço em volta dos tornozelos, indo até nas canelas e me arranquei pra rua levando a minha bola "Canarinho" embaixo do braço.
E brinquei de bola com a turma. Alguns já tinham o seu kichute, outros não. E usei no outro dia. E não queria mais tirar o kichute do pé. Era para passear, ir para a escola, para a educação física escolar. Para todo canto, queria estar com o meu kichute.
Para minha alegria hoje, minha mãe ainda proporcionou um registro meu, com a farda de educação física do Fulgêncio Simões e com meu kichute 32 no pé.
Agora, me diz aí se você não teve um kichute!
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| Eu, em 1974, quando estava indo para a aula de educação física do Grupo Escolar Fulgêncio Simões |
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Mano, todo moleque que nasceu nas décadas de 70 e 80, teve um kichute. Eu também tive o meu, com o qual me empavulava e fazia graça no campinho que existia no terreno na tia Elviria. Eu lembro que, de pessimidade, até chutava na canela dos outros, com meu kichute maravilhoso.
ResponderExcluirMeu amigo Juscelino, a gente se sentia um craque do futebol, quando estava com um kichute no pé. Rs..
ResponderExcluirhahahaha, li essa linda crônica com um sorriso nos lábios!
ResponderExcluirNão lembro quando tive meu Kichute, mas tive. Também sei
o que é querer as coisas e não ser do nosso número! São recordações ótimas da vida que tivemos, algumas não tão boas, mas outras muito lindas!
Um Feliz 2026 pra você e sua família!
Continuaremos essa troca legar em 2026!
Grande abraço daqui do sul.
Um grandioso 2026 pra você e sua família, Taís.
ResponderExcluirJabert, ainda tinha atletas que conseguiam diminuir o volume do bico do kichute usando a famosa lâmina de barbear da gillete. Haja habilidade pra deixar o kichute com outra cara
ResponderExcluirSim, Tony, verdade. E ali pelos anos de 1982, 1983, quando o futsal estava em alta em Alenquer, no auge da quadra do Xeque-Mate, do saudoso Protázio e dona Dionor, alguns atletas, querendo jogar com a kichute, tiraram as travas, dando a função de excelente tênis para futsal.
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