Menino da Colônia - A primeira vez


Jabert Diniz Júnior

Atravessamos a rua, minha avó e eu. Ela segurava firme na minha mão. Eu tinha quatro anos. Havia um carro parado em frente à sorveteria do meu pai. A movimentação ali era grande. Era a avenida comercial da cidade. Já havia bastante gente no carro e também estava abarrotado de mercadorias que eram levadas para as comunidades da colônia.

Chamava-se O Cafona, a sorveteria do meu pai, e era bem conhecida. Ficava em uma esquina da principal rua comercial da cidade. Do outro lado da avenida ficava a igreja de São Sebastião, padroeiro daquele bairro do Aningal.

Naquele tempo não havia muitos automóveis na cidade. Era o tempo dos carros-de-boi, esses, sim, havia muitos. Mas essa avenida era bem movimentada, uma das poucas que eram pavimentadas, pavimento de concreto. Ela dava acesso direto para a estrada que nos levaria para o sítio do meu pai.

Minha avó tinha todo o cuidado comigo. Meu pai e minha mãe confiavam muito na minha avó. Subimos na carroceria do carro. A boleia já estava lotada. Era uma picape com uma carroceria de madeira. Havia outros carros iguais, também cheios de cargas e passageiros. Havia também um pau-de-arara.

Subimos por cima das sacas de milho, de farinha e outros produtos que os moradores das localidades vinham comprar na cidade e levar para consumo próprio e para os animais de cria. Minha avó também carregava umas sacolas cheias de coisas: pão, torrada, arroz, açúcar, café, feijão e outros gêneros que davam para passar alguns dias na colônia sem precisar voltar à cidade.

Estava embarcando para a minha primeira viagem sozinho com minha avó para o sítio do meu pai, que distava dali apenas uns dez quilômetros, mas, pra mim, era uma distância enorme. 

Depois de alguns minutos, com o carro completamente cheio de mercadorias e de passageiros, sob o sol quente, partimos. Eram umas dez horas da manhã.

De fato, aquela curta distância levava um tempo longo para ser vencida. A estrada, a partir do quilômetro zero, era de terra, uma piçarra vermelha que, no verão, fazia  muita poeira e nos tempos de chuva ficava completamente esburacada e com muita lama e atoleiros.

Mais adiante, ainda na avenida, o carro ia parando e novos passageiros embarcavam. Já saindo da cidade, mais embarques. Não havia mais espaço agora, e o carro seguiu viagem.

Uma senhora, que estava com a sombrinha aberta, que conhecia minha avó e levava um molequinho da minha idade, puxou conversa. Disse que naquele dia estava indo para o “Camburão”. - A viagem pra lá é longa, com a buraqueira que tá!, minha avó falou. - É, sim, senhora. Lá pras duas da tarde, a gente chega!, respondeu a senhora. E foram conversando.

O carro já ia passando do quilômetro quatro, fazendo a curva. Não ia com muita velocidade, a estrada não permitia. Era a primeira vez que viajava para a colônia num carro daquele. E, também, sozinho com minha avó. Sempre que ia, era com os meus pais, que tinham uma Rural.

E, também, essa foi a primeira vez que fui para ficar uns dias. Sempre que ia, com meus pais e meus irmãos, voltávamos no mesmo dia.

Depois de mais de uma hora de viagem, chegamos ao nosso destino. Passamos pela frente da casa da dona Terezinha e do seu Irineu, que eram os vizinhos mais próximos do nosso sítio.

Logo adiante o carro parou. O motorista desceu para ajudar minha avó e eu a descermos. Minha avó pagou as passagens, despediu-se de alguns passageiros que conhecia. Fomos para a casa e o carro seguiu viagem.

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